O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, gravou um vídeo nesta quarta-feira (26) para dizer que os preços caíram no Brasil em agosto. A publicação veio logo após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar que o IPCA-15, prévia da inflação oficial do país, registrou deflação de 0,40% no mês, resultado mais forte do que o mercado financeiro esperava.
“Amigas e amigos, a prévia da inflação de agosto caiu ainda mais. Registrou uma queda de 0,40%, mais do que previa o mercado. Isto significa que os preços caíram no mês, puxados principalmente por habitação, transporte e alimentação”, disse Alckmin no vídeo. No texto que acompanha a publicação, ele escreveu: “Caiu, a inflação caiu mais uma vez!”, com marcação ao perfil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O vice-presidente também usou o dado para fazer balanço de governo. “O presidente Lula entrega uma economia com desemprego na mínima histórica, ganho real nos rendimentos e inflação voltando para a meta. É o Brasil colocando a economia no rumo certo, sem deixar ninguém para trás”, afirmou.
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O que ficou mais barato
Os números confirmam a queda apontada pelo vice-presidente. O IPCA-15 vinha de alta de 0,06% em julho, ou seja, recuou 0,46 ponto percentual de um mês para o outro. Foi a primeira deflação mensal do indicador desde agosto de 2025, quando havia registrado queda de 0,14%, e o resultado mais baixo para um mês de agosto desde 2022.
O grupo Habitação puxou o índice para baixo, com queda de 1,41% e impacto de 0,22 ponto percentual. Dentro dele, a energia elétrica residencial despencou 6,25% e respondeu sozinha pelo maior efeito individual negativo do mês. A conta de luz mais barata, porém, não veio de mudança estrutural: o desconto foi viabilizado pelo Bônus de Itaipu, crédito aplicado apenas nas faturas de agosto.
Transportes recuaram 1,00%, com impacto de 0,20 ponto percentual. As passagens aéreas caíram 13,30% no período e os combustíveis registraram quedas que chegaram a 3,63%. Alimentação e bebidas, item que mais pesa no orçamento das famílias, recuou 0,57%. Ao todo, cinco dos oito grupos pesquisados pelo IBGE fecharam agosto em deflação.
No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o IPCA-15 soma alta de 3,09%. Na leitura de 12 meses, acompanhada pelo Banco Central, a taxa desacelerou de 4,52% para 4,24%, voltando ao intervalo de tolerância da meta.
“A inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,2%, indicando que a inflação deve continuar dentro do teto da meta do Banco Central, que é de 4,5%”
Três dias antes, Lula falou em ‘sensação’
A comemoração do vice-presidente chega três dias depois de o presidente Lula dar outra explicação para o aperto no bolso do brasileiro. Em entrevista à TV Record na noite de domingo (23), o petista atribuiu a percepção de preço alto à mudança nos hábitos de consumo e aos juros elevados.
“Por que a sensação está cara? Está caro porque mudou o nosso hábito, porque os juros estão caros e porque estamos comprando mais coisa, utilizando mais coisa”, afirmou. Na mesma entrevista, disse que o consumidor compra por impulso pelo celular e “não se dá conta” do total gasto no fim do mês. “Eu sou favorável que o povo consuma, mas o povo tem que consumir o quanto ele ganha”, completou, ao defender uma política de educação financeira.
No supermercado, os números contam outra história. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), quem recebe o salário mínimo de R$ 1.621 precisou trabalhar 100 horas e 24 minutos em julho para comprar a cesta básica, o equivalente a 49,34% do salário líquido. Em Florianópolis, a cesta custou R$ 860,73, a terceira mais cara do país, atrás apenas de São Paulo e Cuiabá.
No acumulado de janeiro a julho de 2026, todas as 27 capitais brasileiras registraram alta no custo da cesta, com variações que vão de 4,28% em Campo Grande a 15,68% em Porto Velho. Com base na cesta mais cara do país, o Dieese calcula que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 7.687,01, quase cinco vezes o piso nacional em vigor.
O que o vídeo não conta
A leitura otimista tem contrapontos que não aparecem na publicação. O setor de serviços seguiu pressionando o índice, com altas entre 0,40% e 0,46% em educação, saúde e planos de saúde. Cuidados pessoais subiram 0,42% e a alimentação fora do domicílio avançou 0,40%, ou seja, comer na rua continuou ficando mais caro no mesmo mês em que o supermercado deu trégua.
Parte relevante do alívio também tem prazo de validade. O Bônus de Itaipu, responsável pela queda na energia, é um crédito pontual, e analistas de mercado calculam que a reversão desse desconto pode devolver cerca de 0,20 ponto percentual à inflação já em setembro. Há ainda o risco do El Niño sobre as commodities agrícolas, com impacto estimado entre o último trimestre de 2026 e o primeiro de 2027, o que pode interromper a sequência de queda nos alimentos.
O próprio mercado ainda projeta o ano fechando acima do teto celebrado por Alckmin: a mediana do boletim Focus, do Banco Central, aponta IPCA de 5,02% em 2026, contra o limite de 4,5%. A Selic segue em 14% ao ano, depois de o Copom cortar 0,25 ponto percentual pela quarta reunião seguida, e o resultado desta quarta reforçou a aposta de mais um corte no próximo encontro do comitê.
O IPCA-15 mede os preços entre a segunda quinzena do mês anterior e a primeira do mês de referência, e por isso ainda não fecha o quadro de agosto. O índice cheio, que é a inflação oficial do país, será divulgado pelo IBGE em 11 de setembro e vai mostrar se a queda comemorada pelo vice-presidente se sustentou até o fim do mês.






















