Vicente de Paula Lima Neto era o menino que andava de cavalinho em cima de Júpiter, um São Bernardo enorme que a família tinha quando ele ainda contava a idade nos dedos de uma mão. Décadas depois, é ele quem está do outro lado do vidro da sala de atendimento quando um cliente que perdeu o animal de estimação volta, meses depois, para mostrar o novo filhote. “Não tem coisa melhor do que isso aí”, resume o veterinário, que acaba de completar 26 anos de clínica aberta na região de Itapema e Tijucas.
Os números da trajetória impressionam: são 28 anos de atuação na região, mais de 30 mil cirurgias realizadas e uma estimativa que passa de 100 mil atendimentos. “Graças a Deus, tudo bem e cada vez evoluindo. O que acontecia há 26 anos não é a mesma coisa, são várias técnicas que vão mudando”, conta.
A história começa longe de Santa Catarina, no interior de São Paulo. Além do vínculo com os cachorros de casa, Neto acompanhava o pai na fazenda da família, e foi ali que nasceu a vocação. Na faculdade, trabalhou na fazenda da própria universidade para ajudar a pagar os custos do curso e se formou focado em animais de grande porte, principalmente bovinos.

O destino, porém, mudou o plano. Ao chegar a Santa Catarina, Neto começou a atuar em Tijucas e percebeu que a região tinha carência de veterinários de pequenos animais. “Falei: opa, tô achando uma oportunidade”, lembra. A migração de vacas para cães e gatos veio pela demanda, e ele acabou fincando raízes entre Tijucas e Itapema.
O começo, no entanto, exigiu mais do que conhecimento técnico. Na época, quem tinha um cachorro doente levava o animal na agropecuária, onde o balconista dava “uma olhadinha” de graça. Cobrar por uma consulta era quase uma afronta. “Foi uma questão até de educação da população, eles entendendo que realmente uma consulta era diferente de uma olhadinha”, conta o veterinário.
A estrutura também era outra. Nos primeiros anos, a clínica não tinha ultrassom, raio-x nem laboratório. Exames de sangue dos animais precisavam ser feitos em laboratórios de humanos, e um diagnóstico podia levar dias.

Hoje o cenário é o oposto. Com investimentos feitos ano a ano, a clínica conta com raio-x, ultrassom e laboratório interno, o que permite fechar diagnósticos no mesmo dia, sem que o tutor precise rodar a cidade atrás de exames. “Isso tudo aumenta a segurança do atendimento e o principal, a agilidade, que às vezes faz a diferença”, explica.
Entre os equipamentos, um chama a atenção de colegas de profissão: o aparelho de anestesia inalatória, raro em Santa Catarina, segundo o veterinário. “Tem muitos que vêm aqui e falam: nossa, deixa eu tirar uma foto, que eu só vi uma aqui”, conta. As máquinas custam entre R$ 100 mil e R$ 200 mil. “No dia a dia a gente fala: nossa, valeu cada centavo.”
Nesses 26 anos, Neto viu também o próprio cliente mudar. O cachorro amarrado no quintal, tratado “no bico da botina”, como diziam os antigos, deu lugar a um membro da família. E é assim que ele orienta toda a equipe a atender: com acolhimento, entendendo a aflição de quem chega. “A gente tenta tratar todo mundo como se fosse o nosso pet aqui”, diz.

A paixão pela profissão atravessou gerações dentro de casa. Dos quatro filhos, dois seguiram a veterinária: uma está se formando e a outra acaba de entrar na faculdade. “Se eu achasse que era uma profissão que não valesse a pena, eu nunca na vida ia estimular eles a fazerem”, afirma.
Ao olhar para trás, o veterinário se emociona. Fala em amizades construídas, em clientes que ficaram por décadas e nos que, depois de perder um animal, voltam meses depois com um novo companheiro. “Eu sempre falo brincando: Deus fecha uma porta, mas abre sempre duas janelas. Volta um mais arteiro, mais brincalhão, e aquela alegria volta pra casa”, conta.
Depois de 26 anos de clínica, mais de 30 mil cirurgias e 100 mil histórias atendidas, a definição do sentimento sai sem hesitar: “É de gratidão e alegria”.
























