A conta que a campanha da reeleição fez cabe numa frase que o presidente do PT soltou a jornalistas na segunda-feira (17): onde o candidato não conseguir chegar, chega a primeira-dama. Edinho Silva confirmou que Janja Lula da Silva terá agenda própria durante a eleição, viajando sozinha a municípios que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguirá visitar. É um critério operacional de campanha, não deferência protocolar. E, aplicado ao mapa, ele aponta para exatamente os lugares onde o petista perde há três eleições seguidas. A região Sul é esse lugar. Santa Catarina é o caso mais extremo dele.
“Ela participa, claro que ela tem a agenda dela. Já viajou por diversos estados, tem feito diversas reuniões, organizando as mulheres”, afirmou Edinho Silva ao detalhar o papel da primeira-dama na estrutura eleitoral.
Segundo o dirigente, a participação não será episódica. Janja deve manter atuação permanente ao longo da campanha, com agenda paralela à do presidente e foco principal na mobilização de mulheres, segmento tratado como prioritário pela equipe de Lula.
Sem cargo, com poder
Formalmente, a primeira-dama não ocupa cargo nenhum na estrutura eleitoral. Na prática, participa de decisões estratégicas, despacha diretamente com Edinho Silva e com o marqueteiro da campanha, Raul Rabelo, e vai continuar coordenando parte dos próximos atos. Foi dela, por exemplo, a ideia de chamar a cantora Fafá de Belém para o lançamento oficial da campanha, no domingo (16), em São Bernardo do Campo.
Pesquisas qualitativas encomendadas pelo PT ajudaram a desenhar essa atuação. Os levantamentos internos indicaram desempenho melhor de Janja em temas como combate à violência contra a mulher e defesa dos direitos dos animais, e é sobre essa agenda temática que ela deve montar as viagens sem o presidente.
O buraco catarinense
O tamanho do desafio em Santa Catarina explica por que o estado entra na conta. Em 2022, Jair Bolsonaro fez 69,27% dos votos válidos no segundo turno no estado, contra 30,73% de Lula, uma diferença superior a 1,6 milhão de votos. No primeiro turno, a vantagem já era larga: 62,21% a 29,54%.
Não foi acidente de percurso. A divisão geográfica daquela eleição concentrou os votos do então presidente no Sul e no Centro-Oeste, com vitórias amplas também no Paraná. Em 2018, o desempenho da direita no estado havia sido ainda mais expressivo.
O quadro de 2026 não sugere reversão espontânea. Levantamento do Poder360 sobre as articulações estaduais mostra que o apoio a Lula se concentra com mais força no Nordeste, enquanto a base do senador Flávio Bolsonaro, adversário na disputa presidencial, é mais consistente no Centro-Oeste e em parte do Sul e do Sudeste. Em um estado com cerca de 5 milhões de eleitores, cada ponto percentual recuperado pesa na conta nacional.
O risco da aposta
Há um problema embutido na estratégia, e ele é público. A sondagem PoderData de junho mostrou que 52% dos que conhecem Janja desaprovam sua atuação, índice de rejeição maior que o do próprio presidente fora do eleitorado de esquerda. Foram 2.500 entrevistados, com margem de erro de 2 pontos percentuais. Levar a primeira-dama a território adversário pode tanto mobilizar a base feminina quanto reacender a rejeição que já existe.
O que sustenta a decisão é um movimento recente nas pesquisas. Levantamento Quaest divulgado em 5 de agosto apontou que a aprovação a Lula subiu de 45% para 52% entre as mulheres e de 28% para 38% entre evangélicos no intervalo de abril a agosto. Entre as mulheres, a aprovação passou a superar a desaprovação pela primeira vez no período. É exatamente o segmento que a campanha entregou a Janja para trabalhar.
O que já tem data
O primeiro teste tem endereço definido. No dia 29 de agosto, Lula vai a Belo Horizonte para um encontro com mulheres, o primeiro evento da campanha voltado a esse eleitorado. Janja está à frente da organização e vem mantendo reuniões com coletivos de mulheres para acertar os detalhes do ato na Serraria Souza Pinto, no centro da capital mineira.
Antes disso, o presidente inicia as viagens de campanha nos dias 21 e 22 de agosto, por Minas Gerais e Rio de Janeiro. “A partir da semana que vem nós vamos estar organizando outros estados”, disse Edinho Silva ao anunciar o calendário inicial.
São justamente esses “outros estados” que ainda não têm roteiro divulgado. Nem a coordenação nacional da campanha nem o diretório estadual do PT em Santa Catarina anunciaram até agora datas de agenda da primeira-dama no estado. Pelo critério que a própria campanha tornou público, porém, o percurso dela tende a ser desenhado onde Lula não vai pisar, e é difícil montar essa lista sem esbarrar no Sul.
A eleição está marcada para 4 de outubro. Até lá, a definição das agendas territoriais deve sair em blocos semanais, conforme a coordenação da campanha, e é nesse detalhamento que Santa Catarina saberá se entra ou não no roteiro solo da primeira-dama.




































