Perguntaram se ele topava fazer uma palhinha e o menino de sete anos nem hesitou. Ajeitou a gaita no colo, avisou que não sabia cantar muito bem e começou a tocar assim mesmo, com a segurança de quem já subiu em palco de festa de escola e não achou aquilo grande coisa. Henrique toca desde os cinco anos e não tem dúvida quando perguntam se gosta do instrumento: responde “sim” antes da pergunta terminar.
Ele é filho de Joaquim Bueno, conhecido em Tijucas por revender instrumentos musicais há alguns anos, e estuda na Escola Alexandre Ternes Filho, no bairro Joaia. O gosto pela música não nasceu de aula nem de incentivo forçado, mas do movimento da própria casa, cheia de gente entrando e saindo para negociar gaita, violão e teclado.
“Ele se criou no meio desse povo, né? E pegou gosto”, conta o pai. Entre clientes, amigos e festas, o menino cresceu ouvindo instrumento sendo testado dentro de casa. Joaquim sempre manteve alguns à mão, e Henrique brincou com todos ainda bem pequeno, tratando bateria, teclado e violão como brinquedo antes de escolher um deles para valer.
A escolha veio cedo e foi definitiva. Entre tudo o que tinha em casa, foi a gaita que ficou. Ele começou com uma gaitinha pequena e ficou nela até criar corpo suficiente para segurar o instrumento sem esforço, o que aconteceu por volta dos cinco anos.
Foi aí que fez o pedido ao pai. “Pai, eu preciso que tu me ensine um pouco de música”, disse. Joaquim, que fez algumas aulas mas não se considera músico, passou o que sabia. “Eu não sou um músico profissional nem nada, eu toco algumas coisas”, explica. Ensinou escalas, acordes e uma música inteira. O filho gostou, e o pai saiu atrás de um professor.

O professor que dá aula para Henrique hoje é o mesmo com quem Joaquim teve aulas anos atrás. Havia um obstáculo: o menino ainda não sabia ler, e boa parte do ensino de música passa por apostila. Henrique entrou na primeira série neste ano, e o professor montou um método próprio, uma espécie de resumo das músicas, para que ele conseguisse acompanhar o material e depois passar a tocar de cabeça.
As apresentações começaram na própria escola. A primeira foi num Natal, quando ele ainda estava no prézinho, com uma música da data que agradou o público. Depois vieram as aulas mais estruturadas e, na festa junina deste ano, ele voltou a se apresentar na Alexandre Ternes Filho. Segundo o pai, Henrique também tocou ao lado de um colega de seis anos em Canela, no Rio Grande do Sul, onde os dois chegaram a fazer uma entrada ao vivo na TV.
Cantar é a parte em que ele ainda se acha meio devendo, e não faz questão de esconder. “Eu canto, eu faço ela, mas eu não sei cantar muito direito”, disse, antes de tocar assim mesmo quando pediram.
Para o pai, o que mais chama atenção é ver uma criança de sete anos interessada nesse mundo. “É uma coisa muito boa, é uma brincadeira sadia. A gente vê poucas crianças interessadas nesses mundos, talvez por falta de tempo, o tempo dos pais também é corrido para todo mundo”, avalia.
Henrique segue nas aulas semanais e o pai diz que vai bancar o que for preciso para manter o filho estudando música, sem colocar peso de carreira nas costas do menino. “Não vou dizer que ele vai ser um profissional, vai viver disso, mas é bom saber tocar e cantar. É muito bonito.”

























