A consulta era de rotina. No dia 4 de agosto, uma mãe levou a filha de menos de dois meses à UBS do bairro Mato Alto, em Tubarão, no Sul de Santa Catarina, para checar o ganho de peso da menina, que tem refluxo. Já dentro da sala, aproveitou para pedir que o médico olhasse o olho esquerdo da bebê, que apresentava secreção. Foi quando o profissional reclinou a maca ginecológica. Segundo a mãe, a trava de segurança, feita de plástico, quebrou. O encosto desceu e a criança caiu no chão, batendo a cabeça.
Horas depois, a família seria liberada do hospital com a informação de que a tomografia estava normal e a orientação de passar gelo no inchaço. Na madrugada seguinte, a mesma imagem apontaria fratura no crânio e sangramento, e a bebê acabaria internada na UTI.
Estavam na sala apenas a mãe, o médico e uma estagiária. Ainda conforme o relato, o profissional pegou a bebê no colo e a manteve ali por algum tempo, orientando a família a procurar o hospital por precaução. A mãe já tinha viagem marcada ao centro da cidade naquela tarde e decidiu levar a filha junto.
Assista ao relato da mãe

A cabeça começou a inchar
O quadro mudou no caminho. Ainda na casa da pessoa que a levaria até o ponto de ônibus, o lado esquerdo da cabeça da menina começou a inchar. A família seguiu direto para o hospital.
Na unidade, a criança recebeu senha de corte e sangramento e pulseira amarela na classificação de risco. A médica plantonista acionou a pediatria por telefone e pediu uma tomografia. Depois do exame, segundo a mãe, veio a informação de que o resultado estava normal e de que o inchaço era um hematoma subgaleal, sangramento entre o crânio e o couro cabeludo, que sumiria com compressa de gelo. Por volta das 18h, mãe e filha foram liberadas.
Em casa, a bebê começou a chorar sem parar. A família tentou de tudo, achou que fosse fome, ofereceu leite, e nada acalmou a menina. Perto das 23h, os pais acionaram o Corpo de Bombeiros Militar, que levou as duas de volta ao hospital.
A informação oposta na madrugada
Foi na segunda passagem, ainda na madrugada, que a família recebeu a informação contrária à da tarde. Depois de receber pulseira laranja, a mãe foi chamada pela equipe médica e ouviu que a mesma tomografia feita horas antes mostrava fratura no crânio e sangramento, e que seria pedida avaliação da neurologia.
A tua filha está com o crânio fraturado.
A frase, atribuída pela mãe ao plantonista, veio sem que nenhum novo exame de imagem fosse feito naquela madrugada, porque a tomografia já estava disponível desde a tarde.
A menina foi levada à sala vermelha e, à meia-noite, subiu para a UTI, onde permaneceu até a tarde de quarta-feira, quando foi transferida para a pediatria. No dia 6 de agosto, o neurologista concedeu alta, com a recomendação de retorno imediato ao hospital a qualquer sinal de alerta.
Seis meses para o osso colar
O alerta veio quatro dias depois. Em casa, a bebê passou a ter crises de espasmo, e a família voltou ao hospital no dia 10. Os exames confirmaram que a fratura continuava lá e que o osso levaria cerca de seis meses para consolidar. Os exames de sangue vieram bons e a alta estava próxima quando, durante a mamada, a menina revirou os olhos. A equipe de enfermagem foi chamada e a criança acabou internada de novo.
A alta saiu no dia 13 de agosto, após um eletroencefalograma. Segundo a mãe, o exame veio dentro do esperado, descartou epilepsia e a equipe médica atribuiu os episódios de espasmo à queda, ocorrida havia poucos dias. A menina segue em acompanhamento pediátrico e ainda toma medicação para dor.
Boletim, inquérito e cobrança
A família registrou boletim de ocorrência e, conforme a mãe, um inquérito policial foi aberto para apurar o caso. Ela afirma que também foi informada de que as macas das unidades de saúde do município passariam por manutenção. Sua cobrança, no entanto, é anterior ao conserto: quer saber como está o processo de vistoria dos equipamentos dos postos.
Como é que está a saúde da maca ginecológica dos postos de saúde? Se a maca daqui do nosso posto já está assim, imagina os outros postos. Quantas mais pessoas vão precisar ser lesadas desse jeito para eles tomarem uma atitude?
A mãe afirma que teme, inclusive, o que teria acontecido se a queda não tivesse testemunhas dentro da própria unidade, e que a suspeita poderia ter recaído sobre a família. Ela diz que não pretende recuar. “A minha filha podia ter morrido. É uma criança de dois meses, ainda está formando a fonte, ainda está formando todo o crânio”, afirma. “Eu quero justiça, eu quero que eles sejam responsabilizados pelos erros cometidos.”
O prognóstico segue em aberto. Segundo a mãe, a orientação médica é que só o tempo dirá se a menina ficará com alguma sequela. O inquérito continua em andamento. O Jornal Razão mantém o espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Tubarão e da Secretaria Municipal de Saúde.

























