O serviço começou como qualquer outro mutirão de limpeza. Na manhã desta sexta-feira (21), uma equipe da Prefeitura de Lages trabalhava às margens da antiga BR-2, na região do bairro Santa Clara, recolhendo o entulho que se acumula no trecho. Entre os montes de lixo havia sacos amarrados, aparentemente iguais aos outros. Ao abrir os primeiros, os trabalhadores encontraram cães mortos.
Não era um. Vários sacos traziam animais dentro, alguns já em avançado estado de decomposição, indicando que estavam ali havia dias ou que foram deixados no local em momentos diferentes. O número exato de cães não foi divulgado pelas autoridades até a publicação desta reportagem.
O quadro ficou mais grave quando a equipe percorreu o entorno. Além dos corpos ensacados, outros cães, vivos, foram encontrados abandonados nas proximidades do mesmo trecho.

Polícia no local
A Polícia Civil e a Polícia Científica foram acionadas e estiveram no ponto para os procedimentos necessários e para o levantamento de informações que possam esclarecer o caso e apontar a autoria do descarte. A prefeita de Lages, Carmen Zanotto, acompanhou a ocorrência no local.
O trecho da antiga rodovia onde os sacos apareceram já é conhecido pelo poder público como ponto recorrente de descarte irregular de lixo. É uma área de mato, com pouca circulação e sem vigilância, o mesmo perfil de lugar escolhido por quem quer se livrar de resíduo sem ser visto. Foi exatamente por isso que a equipe municipal estava lá.

O que diz a lei
Maus-tratos contra animais deixou de ser infração de menor potencial ofensivo quando a vítima é cão ou gato. Desde a Lei 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais prevê, nesses casos, reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda do animal. Se ocorre a morte, a pena aumenta de um sexto a um terço.
A mudança tem efeito prático direto na investigação. Como a pena máxima passa de quatro anos, o delegado não pode arbitrar fiança, e cabem tanto a prisão em flagrante quanto a preventiva no curso do processo. O abandono, por si só, também é conduta enquadrável, e o descarte de carcaças em via pública ou terreno responde ainda na esfera ambiental.
Casos com o mesmo modo de operação
O volume de animais ensacados um a um é o detalhe que costuma mudar o rumo de investigações desse tipo. Em fevereiro, em Tijucas do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, pelo menos 12 cães foram achados em sacos de lixo numa área rural. Um tutor reconheceu a própria cadela, que meses antes havia sido entregue a uma clínica para cremação. A Polícia Civil do Paraná passou a apurar o caso como possível estelionato somado a crime de poluição por descarte ilegal. Em maio, no Novo Gama, no Entorno do Distrito Federal, ao menos seis cães apareceram em sacos numa área de mata, junto com resíduo cirúrgico.
Não há, até agora, nenhuma informação oficial que aponte essa linha em Lages. A investigação está em fase inicial e a polícia não divulgou hipótese sobre a origem dos animais nem sobre a causa das mortes.
Não é o primeiro caso do mês na cidade
Lages já registrou outra ocorrência grave envolvendo animais nas últimas semanas. No início de agosto, a Polícia Militar prendeu um homem na cidade suspeito de maus-tratos, depois que uma vizinha denunciou que ele vinha agredindo cães havia dias e afirmou ter presenciado o enforcamento de uma cadela com fio metálico. O suspeito negou ter matado o animal.
O caso da antiga BR-2 segue sob investigação da Polícia Civil, que trabalha para identificar quem deixou os sacos no local. Denúncias sobre maus-tratos e abandono de animais podem ser feitas pelo 190, em situações em andamento, ou diretamente na delegacia, inclusive de forma anônima.




























